15 de dez. de 2008

"A VIDA COMO ELA É" - QUANDO O AMOR É SUBSTITUÍDO PELO EGOÍSMO (Big Brother Brasil)

REVISTA "O Pantokrator"

Edição de março de 2008, coluna Cultura Hoje


O programa "Big Brother" é classificado como um "reality show", que quer dizer demonstração ou exposição da realidade.

Numa definição da Wikipédia, os elementos comuns que caracterizam o reality show são os personagens e suas histórias supostamente tomadas da vida cotidiana. O protagonista, normalmente, apresenta-se como um cidadão médio, gente comum que está disposta a atuar como uma estrela das telas a mudança de fazer pública sua vida privada. O sujeito anônimo da grande massa se converte numa "estrela", dado que uma das funções dos meios de comunicação é outorgar "status". O termo "reality show" é conhecido por mostrar, de forma simulada, uma realidade. Em tais programas não há roteiros a serem seguidos e os participantes têm que resolver problemas ou apenas conviver com outros participantes, como no caso do programa Big Brother. Os chamados "reality shows" entretêm as pessoas com a reação de seus participantes em apenas viverem um cotidiano ou realizarem alguma prova.

O Grande Irmão (Big Brother) é um dos personagens centrais de "1984", o romance que o escritor inglês George Orwell publicou em 1948. Preocupado com o totalitarismo soviético, Orwell imagina uma sociedade dominada por um ditador, o Grande Irmão, onde os cidadãos são permanentemente vigiados por câmeras instaladas em suas casas. De algum modo, o Big Brother contribui para que a idéia de um controle permanente sobre a vida pessoal seja aceita. (1)

Como diz a própria definição acima citada, os participantes deste programa passam a ser, mesmo que temporariamente, "estrelas", conseguindo uma fama repentina em função de poder aparecer num veículo de comunicação com uma capacidade enorme de invadir as casas, as famílias, os valores e conceitos, que é a televisão.

Esse "estrelato", não é fruto de algo inovador, de uma invenção, de um produto verdadeiramente artístico, cultural e enriquecedor para o telespectador, mas sim, o resultado da exposição da vida da pessoas que deveria ser privada mas torna-se pública, com um único objetivo: atingir a fama e ganhar com grande volume em dinheiro.

Em cima dessas definições temos que refletir sobre algumas questões, às quais, como cristãos, devemos estar atentos. Podemos nos questionar: "Será que realmente este é um programa que retrata a realidade da vida das pessoas no seu dia-a-dia? Será que é uma rotina participar de jogos, festas, bebedeiras, fofocas, intrigas e de um ócio que leva a dias improdutivos, a objetivos tão pequenos para a vida humana que são: ganhar uma prova, gastar as energias pensando em quem vai eliminar ou como fazer para não ser eliminado de algo que pode lhe render fama e dinheiro? Será que o sentido da vida dos filhos de Deus é tão ínfimo assim? O que se vive dentro da casa onde acontece o programa, retrata a verdade sobre o verdadeiro amor, sobre a amizade, sobre a ética e sobre o respeito de que tanto os participantes falam durante o programa, usando repedidamente o 'chavão': 'Não é nada pessoal, mas...'?"

As situações vividas durante o programa até poderiam ser consideradas inaceitáveis e anti-éticas fora dele, mas como o objetivo final de cada participante é receber o prêmio em dinheiro, torna-se lícita qualquer coisa, vale tudo, vale ser político, vale fazer média, vale a mentira etc. Ora se fala uma coisa, ora se fala outra, ferindo completamente a verdade e promovendo a intriga objetivando destacar-se entre os próprios participantes e para o público.

A formação de grupos que fazem intrigas entre si, estimula a competitividade, o egocentrismo, o individualismo. A formação de casais e a exposição de intimidades entre eles transmite ao telespectador a fragilidade das relações, já que elas não têm nenhum propósito, nenhum compromisso real de fidelidade, de amor, de companheirismo. Existe sim, uma conveniência para se fortalecer dentro do jogo, para tornar o programa mais interessante para o público que é quem decide quem fica ou quem sai da competição.

Ainda mais uma questão é com relação ao palavreado, à postura, às roupas, às danças, ao excesso de bebida , à exposição dos momentos mais íntimos dos participantes, desrespeitando totalmente o pudor, passando tudo a ter dois pesos e duas medidas. As questões referentes à sexualidade são voltadas ao erotismo, ao puro prazer.

Dentro do jogo tudo passa a ser relativo e a verdade é distorcida.

Mas você pode questionar: "Mas isso não é apenas um jogo? É aí que temos que refletir, meu irmão e minha irmã cristãos. Nós temos que tomar muito cuidado para não relativizar a verdade.

O antropólogo René Girard (2), diz que hoje o mundo moderno parece perder a bússola que lhe indica o sentido da vida e do mundo, e navega sem rumo e sem destino e que caberá à Igreja reapontar o caminho da verdade a este mundo mergulhado no relativismo moral e religioso. Girard mostra com profundidade o fracasso e o vazio do relativismo moral: «Não posso ser relativista» porque «penso que o relativismo de nossos dias é o produto do fracasso da antropologia moderna, da tentativa de resolver os problemas ligados à diversidade das culturas humanas. Girard sublinha que nos Dez mandamentos se entende uma noção de moralidade na qual está implícita a noção de caridade. É bom vermos levantar a voz de um grande intelectual em defesa da fé e da moral, contra a "ditadura do relativismo", tão combatida pelo Papa atual. (3)

"O relativismo significa que não podemos conhecer a verdade como tal ou em sentido pleno: cada um tem a sua "verdade". (4)

"É um grande e perigoso engano: o relativismo, isto é, deixar-se levar "aqui e além por qualquer vento de doutrina", aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades." E acrescentou: "Ao contrário, nós temos outra medida, o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É Ele a medida do verdadeiro humanismo. "Adulta" não é uma fé que segue as ondas da moda e a última novidade; adulta e madura é uma fé profundamente radicada na amizade com Cristo. É esta amizade que nos abre a tudo o que é bom e nos dá o critério para discernir entre verdadeiro e falso, entre engano e verdade. Devemos amadurecer essa fé e assim guiar o rebanho de Cristo. E é essa fé, só essa fé que gera unidade e se realiza na caridade". (5)

É incrível como famílias inteiras se espalham em suas salas para assistir, torcer e concordar com este programa e não percebem que o mesmo pode influenciar os seus comportamentos, com os valores e objetivos apresentados. O fato de as famílias dos participantes aparecerem também em vários momentos do programa, passa uma inverdade, que é a de que o programa pode ser familiar. Muitas vezes inconscientemente os pais de muitos telespectadores gostariam de estar no lugar dos pais dos participantes, esperando que os seus filhos ganhassem um carro, um passeio de avião ou de helicóptero ou ainda uma bolada de dinheiro, independente do que os filhos tivessem que fazer, independente da exposição do corpo dos seus filhos, independente do tipo de relacionamento que seus filhos estabelecessem dentro da casa e independente de seus filhos estarem sendo sinceros ou não, desonestos ou não, mentirosos ou não.

Ainda outro dia fiquei surpresa com o comentário de uma mãe que ficou impressionada com a exposição do corpo das participantes mulheres deste jogo e que também a sua filha de apenas seis anos ficou escandalizada, mas continuam assistindo. Esse fato mostra que os pais estão permitindo que crianças e adolescentes assistam a esse tipo de programa.

Por mais que esses pais coloquem que é um erro, um escândalo, não se chega a fundo na verdade, e aí, como queremos que as nossas crianças e adolescentes se tornem jovens e adultos saudáveis em sua afetividade, em sua sexualidade, em sua espiritualidade, em sua honestidade, sendo que desde pequenos eles já estão sendo formados não pelos seus pais dentro dos princípios e valores evangélicos, mas sim sendo formados, alienados e massificados pelos veículos de comunicação que não se importam com cultura, com ética, com a moral e com os verdadeiros valores cristãos?

Vemos, então, que muitos veículos de comunicação estão interessados apenas na audiência, enquanto nossas crianças, adolescentes e jovens, e também os adultos e idosos e até as pessoas mais cultas, que deveriam ser os primeiros a rejeitar esse tipo de programa, se permitem influenciar, se permitem deixar embalar por tanta falta de critério, de valores morais e éticos.

Nós, como cristãos, temos que nos posicionar, para em tudo buscar nos enriquecer a cada dia com a verdade que está em Jesus Cristo, para que um programa como esse ou como tantos outros não roube de nossos corações essa riqueza, essa pérola preciosa que é essa verdade em nossas vidas. Verdade que não é simples cumprimento de regras, mas caminho de liberdade e de vida, caminho de verdadeira felicidade, caminho de salvação.

(1) Alberto Barlocci. Cidade Nova - ano XLIX - nº 12, p 36.
(2) «Verdade ou fé fraca. Diálogo sobre cristianismo e relativismo», Editora Transeuropa
(3) Ciência e Fé - Prof. Felipe Aquino at 4:35 pm on Domingo, Fevereiro 4, 2007
(4) Meditação - Prof. Felipe Aquino at 6:41 pm on Terça-feira, Março 20, 2007
(5) Cardeal D. Eugenio de Araújo Sales - A degeneração dos valores morais e éticos - Para combater o mal, faz-se mister uma vida cristã autêntica- cançãonova.com

Érica Diogo de Araújo
Postulante na Comunidade Católica Pantokrator
Revista "O Pão da Vida", março de 2008
Comunidade Católica Pantokrator

0 comentários:

Postar um comentário