12 de dez. de 2008

Radicalidade e Radicalismo

Edição de janeiro de 2002, coluna Especial


A data de 11 de setembro de 2001 com certeza será um marco na história do homem do novo milênio. Essa data está trazendo mudanças em vários campos, como o geopolítico, econômico, bélico e também no campo religioso. A forte relação do desastroso atentado com o Islamismo coloca a humanidade frente a reflexões no campo religioso.

Vários cientistas políticos, especialistas em causas internacionais e mesmo sobre o Islamismo têm apontado que o terrorismo de origem muçulmana tem causa, muito mais do que na religião islâmica, em interesses de grupos minoritários em dominar regiões de população muçulmana. Para isso usaram dessa religião surgida de supostas profecias no séc VII com Maomé. Mais do que isso, abusaram de forma fundamentalista do Alcorão, livro sagrado do Islamismo, interpretando aleatoriamente os textos, instigando o povo a condutas que qualquer ateu que tenha o mínimo de bom senso sabe ser uma afronta à humanidade.


Temos algo a aprender com o Islão

Disso tudo surgem as mais diversas reações: da condenação absoluta a tudo do islamismo a uma adesão impressionante à causa dessa religião. A condenação, embora ignorante, é fácil de se entender pelo contexto. Porém, a adesão, muitas vezes em detrimento do cristianismo, causa surpresas, justamente por causa do contexto. Sem dúvida - e nisso temos que estar sempre atentos - o homem reage aos fatos negativos de forma exagerada aderindo ao extremo oposto ou à própria situação vigente, por pior que seja. Dificilmente busca-se uma resposta sensata que, ao mesmo tempo que busca corrigir os erros, preserva o que há de valioso por baixo das sucatas e geralmente não é pouco o que pode ser preservado.

Nisso tudo, no que concerne ao islamismo, o que devemos tirar para nós? Mesmo no esforço do diálogo inter-religioso, como devemos nos enriquecer com a religião oriunda dos povos árabes?

Não quero aqui entrar no mérito das questões islâmicas, sua relação com outras religiões, o tratamento que as mulheres devem receber, a relação Estado-religião etc. Mas, o que tem levado pessoas do mundo ocidental, tão distantes dos costumes islâmicos, a abandonar o cristianismo e aderir ao islamismo de tal forma a dar ao Islão o trunfo de ser a religião que mais cresce no mundo hoje, passando a marca de 1,3 bilhão de adeptos (o cristianismo possui mais de 2 bilhões) ?

Talvez em um ponto ao menos os islâmicos "dêem um banho" nos cristãos: na autenticidade. É incrível a disposição dos fiéis islâmicos em praticar fielmente os preceitos e "sacrifícios" prescritos pelo Alcorão e a Suna (seus livros sagrados). Por exemplo, a fidelidade que mostram na observância das cinco orações diárias prescritas, ou do jejum durante todo o mês do ramadã, e mesmo o zelo pelos livros sagrados. Nas questões similares, no cristianismo, as coisas são bem diferentes. Hoje, o cristão - considero aqui todos os batizados - durante o dia, mal se lembra de que Deus existe. Os jejuns e piedades, preceito nas sextas-feiras e dias penitencias, são considerados ridículos. O domingo, nosso dia sagrado, virou dia da preguiça para quem não trabalha, dia do trabalho para o comércio ganancioso e das orgias para as televisões do mundo cristão. A quaresma e semana santa, nosso "ramadã", são precedidas por um carnaval obsceno e a semana santa é dia de "aproveitar a praia".Quanto à Bíblia - é até vergonhoso - os cristãos, quando a lêem, não entendem nada, acham confuso, exagerado... "parece escrito em árabe".

Porém, o homem tem sede de radicalidade, entendida como autenticidade na entrega de si para se viver o que se crê. Criado para o amor, o homem é essencialmente radical, pois é chamado à entrega de si para o outro. Tudo fora disso é mero prazer que passa. Somente no amor a Deus e ao próximo o homem é feliz. O homem busca isso e, quando acha e vive, se realiza.


É urgente a necessidade da resposta dos cristãos

Nós, Cristãos, no entanto, abolimos a radicalidade - autenticidade - com medo do radicalismo que, este sim, é um fanatismo extremado que, sem coerência e respeito ao próximo, assume posturas piedosas e em nome de Deus realiza absurdos. Com isso, o cristianismo, que é mais radical do que o Islamismo, por propor o verdadeiro amor que dentre outras coisas "ama os inimigos"- basta olhar a Cruz - tornou-se a religião dos medíocres, mornos, sem identidade de fé. A religião da "boa vida" que não exige nada e portanto não leva a lugar nenhum. A religião do "meu Deus" que oro no quarto (não preciso ir à Igreja) em que se aceita aquilo que é conveniente. Religião assim não realiza ninguém, e a falta dessa radicalidade tem levado muitos cristãos a buscar outros caminhos mais radicais.

O pior de tudo é que corremos um sério risco de relativizar ainda mais as coisas, pois "vimos no que dá a radicalidade islâmica". É preciso deixar claro, e nisso todos os entendidos concordam, que o terrorismo islâmico não é fruto da radicalidade islâmica, mas do radicalismo fanático - fundamentalista islâmico que surgiu sobretudo de manipulações interesseiras do Islão por determinadas pessoas, não do verdadeiro islamismo.

É urgente uma resposta dos cristãos. Mas uma resposta sensata e não uma reação descontrolada que leve a exageros. Nossa resposta deve ser um assumir de forma autêntica a religião que herdamos. Não por simples tradiciona-lismo, mas por convicção. E aqui me desculpem os muçulmanos, Maomé é incomparável a Jesus. Jesus não é simples profeta; é o próprio Filho de Deus que Se encarnou no ventre da Virgem Maria por obra do Espírito Santo. "Ele é Deus de Deus, Luz da Luz; Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai... Por nós foi crucificado... ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus onde está sentado à direita de Deus Pai." (Credo Nicenoconstantinopolitano). Ele é o único em toda a história que ressuscitou, Ele é Deus!!!

omos cristãos. Temos a plenitude do que o Pai nos quis dar. E Ele o fez por Seu Filho que nos enviou o Espírito Santo. Em nenhuma outra religião Deus deu Seu Filho para nós. Em nenhuma religião Deus deu Seu Espírito para morar em nós. Em nenhuma religião Deus foi à Cruz para nos salvar. Em Nenhuma religião o "profeta" ressuscitou, quando muito foi levado aos céus (os islâmicos - com Maomé - crêem nisso, assim como os judeus - com Elias e Enoc). Em nenhuma religião "Deus amou tanto o mundo"! (Jo 3, 16)

Temos tudo, Deus nos deu tudo! Basta que assumamos com radicalidade a fé que recebemos em Cristo Jesus e isso pediu o Papa no jubileu com os jovens e deixou claro na carta apostólica Novo Millennio Ineunte, no 09: "Por isso, vibrando com o seu entusiasmo, não hesitei em pedir-lhes uma opção radical de fé e de vida". Aí não se precisará de aviões para pôr abaixo as torres de Babel do orgulhoso e ganancioso homem moderno. Aí faremos coisas muito mais extraordinárias, destruiremos todas as torres de pecado e maldade sem nenhuma vítima.

André Luis Botelho de Andrade
Fundador da Comunidade Católica Pantokrator
Revista "O Pão da Vida", janeiro de 2002
Comunidade Católica Pantokrator

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